Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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5 de jun de 2008

Fogo Morto

Fui atrás do Fogo Morto para entender o Cidade de Deus. Explico: Paulo Lins, autor deste, declara em inúmeras entrevistas - “quem quiser entender Cidade de Deus”, seu primeiro livro de ficção, “deve ler Fogo Morto, de Zé Lins do Rego, tá tudo ali”. Vou ver se está mesmo. Cidade de Deus - 1a edição, sem as alterações sofridas para evitar mais processos pecuniários movidos por figuras reais que inspiraram personagens e, ingenuamente, como uma homenagem, o Paulo utilizou os nomes – aguarda sua vez na fila de leituras. É um autor monumental, o Zé Lins. O autor e a obra me ajudam a pensar o conceito de literatura negra que ando perseguindo, a entender a necessidade dela. Trata-se de uma busca para explicar a mim mesma, para me explicar aos outros e me dar explicações. Neste livro, o Fogo Morto, a compreensão se dá pela ausência, pela invisibilidade, pela falta de significado do negro no retrato do real dos engenhos de cana, pós-abolição da escravatura, desenhado por Zé Lins. Na segunda parte da obra, “O engenho de seu Lula”, em especial, é chocante o desprezo à figura do negro na narrativa, marcada por nulidade e falta de ação estarrecedoras. Talvez o autor tenha sido realista ao extremo ao descrever a forma como os negros eram tratados no engenho do seu Lula e por seu Lula, emblema maior do conservadorismo e da saudade atávica dos tempos da escravidão, acalentada por escravizadores e seus herdeiros. Mas não deixa de atarantar o juízo. Nem autor, nem narrador humanizam os negros em qualquer mínimo aspecto, só existe a aquiescência à servidão. Na primeira parte, “O mestre José Amaro”, reservava-se ainda algum lampejo de humanidade para os personagens negros. Mas, na segunda... diz o texto, à página 137: “Os negros do capitão tinham fama. Diziam que no Santa Fé, negro só comia uma vez por dia, que couro comia nas suas costas, nos castigos tremendos. O fato era que a escravatura do Santa Fé não andava nas festas do Pilar, não vivia no coco como a do Santa Rosa. Negro do Santa Fé era de verdade besta de carga. O capitão dizia ele mesmo que negro era só para o trabalho. Ele não era negro e vivia de manhã à noite fazendo sua obrigação”. Depois à página 140: “Nas mãos do Capitão Tomás tudo rendia, tudo dava dinheiro. É verdade que tinha uma mulher que era metade do seu esforço. Cuidava ela dos negros, cosia o algodãozinho para vestir-lhes, fazia-lhe o angu, assava-lhes a carne. A sua escravatura era de gente boa. Trouxera do Ingá negros de bom calibre. Nunca comprara peça barata, resto de gente que só lhe desse trabalho. Negro ruim e barato deixava para os pechincheiros. Queria povo para o trabalho, negro que parisse braços e mais braços para os seus partidos”. Depois, à página 148: “E começou o Santa Fé a girar em torno do cabriolé. Tomás era homem simples, mas gostava de mostrar aos senhores de engenho da Ribeira que não era o camumbembe que eles pensavam. Tinha filha que tocava piano e genro que possuía cabriolé. O primo preparou-se para a viagem. Levou quatro negros a Goiana, e numa tarde de verão, com o Santa Fé moendo, entrou de cercado adentro a carruagem de Luís César de Holanda Chacon. Fora uma festa igual aquela da chegada do piano. Uns foram acompanhar o carro desde Itambé até ali. Na areia do tabuleiro as rodas se enterravam fundo. Braços de negros, de curiosos, empurravam o carro. Para os cavalos cansados havia negros que os substituíam (grifo meu). E, finalmente, à página 176: “Lembrava-se do negro Nicolau. Ainda hoje ele passava ali pela porta do engenho e não parava para dar duas palavras. Apanhou como negro ruim por ordem do Lula. E as negras velhas de sua mãe? Germana, Luísa, Joana, todas se foram de uma vez para sempre. Nem uma só vez voltaram ao Santa Fé para uma visita. Sabia que a cozinha do Santa Rosa vivia cheia de negros da escravatura. Em todos os engenhos haviam ficado escravos que não quiseram abandonar os senhores, que amavam os senhores como se fossem criaturas da casa-grande. Ali não paravam. E até eram tidos como inimigos. Via aquele Nicolau, já bem velho, passar pela porta e mal tirar o chapéu. Parecia um negro de longe, que nunca parara no engenho”. É tudo tão atual, embora a edição lida seja de 1957 (Casa Garraux e José Olympio Editora) e a primeira publicação de Fogo Morto date de 1943. Devíamos ser gratos por estarmos vivos, por não terem nos mandado de volta à África – isso nos dizem por ideogramas, os detratores das ações afirmativas. É, literatura negra é preciso!
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