Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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10 de jun de 2008

Representações performáticas brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces, um bom livro

O Tambor tem feito muitas coisas comigo, uma delas é me forçar a estudar temas ligados ao corpo. Várias pessoas que o lêem e, principalmente, escrevem sobre ele, falam da corporalidade exacerbada nos textos. Juro que não percebi quando escrevi, muito menos foi algo intencional e agora estou estudando um pouco para entender essas leituras. Também porque começo a ser chamada para falar a partir desse enfoque e, para não dar vexame, estou me inteirando de umas discussões arejadas que graçam por aí. Foi assim que cheguei ao livro “Representações performáticas brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces”, organizado com competência e sensibilidade pelo Professor da UFMG, Marcos Antônio Alexandre. A publicação é da Mazza Edições, 2007, e foi um presente recebido da editora, que muito me acrescentou, diga-se. A parte I do livro chamada “memória e escrevivência” é aberta por um texto fulminante da escritora Conceição Evaristo. Quanta coragem para contar as próprias escrivivências. Depois, Eduardo Assis, também professor da UFMG e autor de Machado de Assis afro-descendente ( Pallas/ Crisálida, 2007), comenta o obra de Conceição Evaristo, com destaque para Ponciá Vicêncio, romance da Mazza Edições, adotado no vestibular da UFMG, em 2007. Dentre outras passagens interessantes, há uma sobre Úrsula, publicação de Maria Firmina dos Reis, de 1859. Diz ele: “O texto de Maria Firmina dos Reis, a exemplo da poesia satírica de seu contemporâneo Luiz Gama, destoa cabalmente do projeto literário romântico, empenhado na missão conservadora de unir o país assolado pelas recentes revoltas separatistas, através do reforço literário das narrativas e dos conceitos de nação e de identidade nacional. O texto de Úrsula, ao contrário das ficções de fundação comuns em seu tempo, recusa-se a propagar a ideologia de uma identidade nacional uma e coesa, que apaga as diferenças e naturaliza hierarquias. Em vez disso, enfatiza a diferença étnica transformada em desigualdade social e subalternizada pelo escravismo. Ao colocar o negro como referência axiológica de seu texto, verdadeiro exemplo para personagens e leitores brancos; e ao inscrever senhores e escravos como “filhos de Deus” e “irmãos” perante os desígnios divinos, a escritora maranhense apropria-se da moral hegemônica para desmascarar o rebaixamento dos afrodescendentes” (p.28). O texto que conclui a primeira parte é de Florentina Souza, estudiosa de literatura negra ou afro-brasileira, como costuma nomeá-la, e professora da UFBA, “Memória e performance nas culturas afro-brasileiras”, no qual afirma e comprova que “o corpo negro em performance tem sido estudado na contemporaneidade como reinvenção de imagens pelo diálogo entre imaginário e memória, que se tornam amplificadores para vozes e reivindicações, às vezes, desprestigiadas” (p.35). A segunda parte do livro, “O corpo em performance, a arte e a poesia: o profano e o sagrado”, é aberta por um texto magistral de Zeca Ligiéro, professor de teatro na UNIRIO e coordenador do Núcleo de Estudos das Performances Afro-ameríndias, naquela mesma universidade. O texto se chama “Artes do corpo: desenhando um espaço sagrado” e aborda a obra de Aleijadinho e Mestre Valentim, as africanidades presentes nelas e o quanto alguns renomados artistas brasileiros beberam das artes africanas para criar suas inovações. Aprendi bastante. Vejam um trecho sobre a obra de Valentim: “O conjunto de animais (jacarés e garças), esculpidos e fundidos em bronze pelo próprio artista (Valentim), de forma pioneira em nossas terras, refletem o seu gosto pela fauna brasileira e um certo conhecimento esotérico africano. Para a pesquisadora Ana Carvalho, ‘o magnífico conjunto representando dois jacarés entrelaçados em posição de movimento e transitoriedade’ são ‘representados seguindo as regras do naturalismo ótico, da multiplicidade harmônica dos ritmos e das gradações de superfície da estética rococó”. A escolha de um par de jacarés apresenta aspectos passíveis de uma interpretação a partir dos valores culturais africanos, pois, nesse antigo continente, os crocodilos são considerados animais sagrados, símbolos de fertilidade e de renovação da vida. A forma como estão dispostos e entrelaçam seus rabos extrapola o naturalismo rococó num geometrismo atípico dessa escola e que remete a uma linguagem simbólica. Não foi por acaso que o autor escolheu esse réptil para de sua mandíbula verter a água da fonte. Possivelmente, o artista teria o conhecimento da entidade Dan, do antigo Daomé, ou Dambala, do Haiti, também e no Brasil conhecido como Oxumarê, Orixá representado por duas serpentes que se cruzam representando a dualidade do sagrado: as duas energias vitais. Tudo indica que sua escolha não foi aleatória” (p.47). Há inda vários ótimos artigos, comentarei apenas mais três em pôste futuro: “Palavra poética em transe/trânsito: manifestações pelos sete buracos da minha cabeça”, de Jussara Santos; “Do verde de Oxóssi ao ouro de Oxum: o ritual religioso na poética de José Carlos Limeira”, de Zoraide Portela Silva e “Performance-cidadã” de Anízio Vieira.
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