Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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19 de jun de 2008

Pela mão de Benguela - conto inédito

"Fica então determinado, por este egrégio Conselho, que a irmã Estrela de Carvalho Rocha Amorim, ficará em isolamento completo dentro deste mosteiro de clausura, como apelo à reflexão para suas tentativas de práticas inomináveis junto a companheiras de ofício religioso. Rogamos à Maria, mãe divina, amantíssima e piedosa, para que estenda seu manto misericordioso de luz sobre esta pecadora ignóbil. Rogamos aos anjos e santos para que ela se arrependa dos atos que a condenam, posto que, esta sentença do Conselho não a pune, mas responde ao clamor de seus próprios atos por punição. Sendo assim, o isolamento absoluto a ela impetrado, é procedimento adequado, para o próprio bem da irmã Estrela e desta instituição".Terminada a leitura da sentença pela Madre, as seis integrantes do Conselho, de cabeça baixa, disfarçam os sinais de descontentamento e perplexidade. Uma delas, para interceptar o caminho das lágrimas, apressa-se ao toilet e despeja gotas grossas, que deixam um rastro de sal e dor no rosto, apagado pela toalha branca umedecida. Durante a sopa das dezoito horas, última refeição do dia, as noviças não sabem o que se passa, mas antevêem a gravidade do que está por vir. Estrela, como nos dias anteriores ao julgamento, senta-se sozinha no canto de um dos bancos compridos e toma aquela que será sua última refeição em grupo. Ela não pensa em nada, apenas procura os olhos de Esther que, corajosamente, olha para ela e sorri. Estrela recebe, mas não devolve o sorriso, desanuvia o rosto e engole na última colherada de sopa todo o carinho que Esther lhe oferece à distância. Organiza-se sem esforço a fila de saída do refeitório, todas sabem o que fazer, cada uma conhece o próprio lugar. Andam calmas e silenciosas até a porta. Esther fixa o olhar em Estrela ao se levantar. É a última a sair da mesa e deixa algo dentro do prato, sem tirar os olhos de Estrela. Vê todas as noviças saírem, uma por uma, se deixa ficar. A cozinheira, Maria Benguela, recolhe os pratos e ao passar por Estrela entrega o pequeno regalo deixado por Esther. Guarda a encomenda no bolso fundo do hábito branco. Agradece com os olhos, única expressão permitida. Não teria uma última noite no quarto afastado do dormitório, é conduzida para a cela de isolamento. É um lugar frio, mas seco, sem umidade. Possui um catre num canto, lençol e coberta; prato, caneca e toalha dentro de uma bacia. Uma moringa de água. Não há lamparina, nem janela para o exterior, só uma janela grande no meio da porta, por onde ela imagina, entrará a comida. Serão dias tão longos, noites intermináveis, solidão e silêncio como acompanhantes. Estrela deita-se, tenta dormir, põe a mão no bolso e abraça o pequenino embrulho, apalpa-o, percebe que há um papel e algo mais sólido, mas nada consegue enxergar, será preciso se acostumar à escuridão. Dorme. Acorda agitada, o martelo do desespero comprime seus miolos. Pensa na vida fora da clausura, na vida enclausurada, em Esther, seu bálsamo. Lembra-se da infância, das flores do campo e vê o rosto de Esther em cada uma delas. Centenas de flores mínimas, centenas de rostos, sorridentes, serenos, felizes, de dúvidas, de encanto, rostos de Esther. A ida para o convento aos 16 anos, depois da morte dos pais. A chegada da amada no dia em que completou 17, sol de primavera naquele dezembro chuvoso. Aquele sorriso lindo, quase infantil, no rosto de 15 anos. Esther fora escolhida pelos pais, dentre as quatro irmãs, para ter um futuro religioso. Destino comum ao de Estrela por diferente caminho. Sorri o primeiro sorriso desses dias tão tristes. Acaricia o peito, tira o pano do cabelo e passa os dedos entre eles. Lembra-se de como Esther gosta de tocá-los. Decide que vai viver, por Esther, ainda se dará chance de dizer a ela que a vê em cada flor revivida nas lembranças. Acorda com a voz de Maria Benguela e uma certa claridade ou rasgo de luz na escuridão. "Estrela, minha filha, acorda, hora do café". Aquela preta grande e boa, forra, amiga de quem a tratava bem, carinhava Estrela como filha, desde sua chegada. Benguela e Esther eram seu travesseiro de afeto naquele mosteiro inóspito. Por Benguela soubera que os tios a colocaram no convento para cuidarem, eles mesmos, dos bens deixados pelos pais. Pela voz de Benguela, agora, receberia sua ração diária de amor. Benguela passa à Estrela um alguidar com carás e mel, banana e batata doce cozidos, um pedaço de pão, ainda quente e uma caneca de café. "Esta é a minha comida, ocê precisa ficar forte para o que virá". Pergunta se guardou o presente da menina. Ela acena com a cabeça, guardou sim. Aproveita a réstia de luz para abrir o papel, lê a frase: "Minha flor de laranjeira, não tema, tenha fé e paciência. Deus proverá!" Dentro do papel uma pedra sabão ovalada com o desenho de duas mulheres abraçadas, ela e Esther. Estrela não se contém e chora. Benguela segura sua mão e canta baixinho: "tá caindo fulô, tá caindo fulô, tá caindo fulô, tá caindo fulô... cai do céu, cai na terra, olê-lê tá caindo fulô". O canto é como uma luz azul e quente entrando pelo corpo de Estrela, que se acalma e beija as mãos de Benguela. "Minha filha, não posso me demorar", diz a preta. "A sua solidão é doída, mas pensa na solidão daqueles que atravessaram a kalunga Grande e chegaram nessas terras, sem saber como, nem pra quê. Agora preciso ir, volto pra trazer o almoço". Estrela larga o corpo no catre, tenta pensar no conselho de Benguela, mas não consegue. Como passará toda a vida assim, presa e sozinha? Longe de Esther? O que fizera para merecer tal punição? Apenas olhara Esther nua e Esther a olhara também. Trocaram carinhos nos cabelos, no rosto, nos seios e algo puxou uma para a boca da outra e se beijaram, único, longo beijo, interrompido pela chegada inesperada da madre ao quarto. Se pudessem sair daquele lugar, viverem juntas e livres. Mas se esta possibilidade era remota antes, ainda mais agora com a prisão. Reza e chora. Adormece abraçada à pedra-sabão desenhada, sonha com Esther, uma casa, crianças, as flores da infância, um quintal de hortaliças e frutas. Acorda e se dá conta do isolamento, da falta do que fazer, de espaço para se movimentar. Quer tirar a roupa, está quente, mas não sabe se há risco da madre chegar, se ao despir-se do hábito poderá aprofundar o castigo. Não sabe de nada e a sensação é desesperadora. Pela manhã ficara tão emocionada que sequer conseguira conversar com Benguela. Procurará se conter na hora do almoço e fará perguntas, pedirá notícias de Esther. Estrela pensa no mar e na travessia dos pretos quando é acordada por fortes batidas na porta. O coração dispara, é a santa Benguela chegando para responder às perguntas que a inquietam. Decepciona-se, não é Benguela, é Natalícia, uma das enjeitadas da Roda. A que nunca fala e olha as noviças com ódio, limpa o chão do pátio, do refeitório e da cozinha enraivecida, estronda as panelas quando as lava. É mestiça e bela, mais para negra, mas vê-se que tem mãe branca. Mestiça, quando é filha de branco com preta vira escrava, é vendida, não vai para a Roda. Se a mãe é livre, cuida. As enjeitadas costumam ser filhas das brancas. Filhas de estupros, de amores proibidos, da falta de condição pra cuidar. É senda desconhecida. Enjeitadas não têm história. Natalícia chama Benguela de mãe e as noviças a invejam, queriam ter uma mãe ali dentro. Quando a madre se aproxima dela, se destempera, poreja medo pelo corpo, é seu jeito de falar. Natalícia abre a porta e entrega a comida quente e cheirosa. O amor de Benguela vem junto. Estrela agradece, Natalícia ensaia um sorriso, como é bonita. Deixa roupas limpas e uma toalha maior sobre o catre. Traz outra bacia, uma bilha grande de água. Recolhe os dejetos de Estrela e deixa a porta aberta enquanto ela come. Estrela sorve o ar e saboreia a comida, bebe a água fresca, sorri pela segunda vez. À noite Natalícia volta para trazer sopa e pão. Estrela fica feliz ao vê-la e dá o terceiro sorriso do dia. Natalícia sorri também. Tarde da noite, no quarto dos fundos, depois de acalmar Natalícia que mais uma vez chega chorando dos aposentos da madre, depois de cantar para ela dormir, Benguela se arrepia à primeira caída dos búzios. Joga novamente para se certificar, confirmado. Joga a terceira vez e N'Zázi diz que sim, irritado. Matamba se posta ao lado dele. N'kosi Mukumbe dá um passo à frente. O que é para ser feito, deve ser feito. Benguela agora está certa do que deverá fazer. Estrela repara que há manhãs em que Natalícia está tranqüila ao levar o café, parece até que poderá ser feliz, um dia. Noutros está transtornada, indócil, irascível. Num desses dias solta fogo pelos olhos, encosta-se à parede, derrotada. Olha no fundo dos olhos de Estrela, aperta os punhos e chora. Estrela se levanta e a abraça. Natalícia não se move, permanece hirta, encostada à parede fria. Para surpresa de Estrela, ela fala: "aquela mulher, ainda mato ela". Dias e noites se passam, Estrela não sabe quantos, não tem como contar o tempo. Sua angústia aumenta, seus ossos doem, há um zumbido intermitente na cabeça. A pele está seca, trinca, deve estar muito feia, mas não tem como saber. Tem vontade de morrer, pensa em formas de aproximar a morte. Quando Benguela aparece, abraça-a, tranqüiliza-a, tudo está por se resolver. Ela não sabe porquê, mas confia sua vida à Benguela. Pela manhã, muito cedo, ainda antes do dia acordar, Mutalambô e Katendê levam Benguela para os matos. Ela busca raízes difíceis de encontrar. São típicas de regiões mais quentes e a área do mosteiro é fria, no alto da serra. Só encontra uma raiz e não pode esperar a próxima lua minguante. Precisará de ajuda. Desce até a beira da estrada e espera o pessoal do quilombo passar para vender na cidade, as sacas de café desviadas das fazendas. Manda o recado, descreve a raiz, reforça o horário de colher. Planta que não é colhida na hora própria, não tem valor. É imperativo colher na madrugada do dia seguinte. Ela estará na estrada, no mesmo horário, aguardando. Esther quer escrever à amada, mas é impedida pelos olhos vigilantes das espiãs. Escrever é deixar pistas e provas. A madre pode interceptar uma carta e mostrá-la à sua família que, duas vezes por ano vai visitá-la. Pode usar a carta para chantagear seu pai em busca de mais recursos para o convento ou para a quinta da velhice da madre, em Portugal. Não pode se arriscar, tampouco expor Estrela a coisas ainda piores. Confia em Deus e na astúcia de Maria Benguela. Enquanto definha, Estrela também só encontra forças nas palavras da preta mandingueira. É noite, Natalícia recebera o sinal mais cedo e deve dirigir-se ao quarto da madre. Benguela troca longo olhar com ela, abraça-a, diz: "vai minha filha, de hoje não passa, tenha fé em N'Zázi, seu pai". "Que pai, minha mãe? Eu nunca tive pai, se tivesse não tava aqui". "Bata na boca, minha filha. Ocê tem pai e quem tem pai, não morre de boca aberta". Natalícia endireita o corpo, é a primeira vez que passará naquele corredor de cabeça erguida. Quando a madre passa a mão no contorno de sua boca, ela tem uma vontade quase irresistível de matá-la naquela hora, mas controla-se, não estragará o plano. Tudo se desenrola em minutos intermináveis, a madre tira as roupas de Natalícia, observa-a, aperta-lhe o peito, lambe-lhe as partes. Natalícia não se move. A madre reclama, convida-a a entregar-se, a brincar. Mantem-se firme, seu desejo é mostrar os dentes, as garras, o punhal de Matamba com o qual sonha. A madre não tem pressa, um dia fará com que a enjeitada tenha prazer em ser dela. Começa a agredi-la: "enjeitada, preta suja, seca, nem tua mãe te quis. És amaldiçoada". O punhal ferroando a cabeça de Natalícia. "Vai-te embora. Vá buscar minha comida e meu vinho", ordena a madre. A moça se veste e vai até a cozinha. Leva a refeição leve preparada por Benguela. A madre manda que ela experimente cada coisa e espere enquanto ela se refestela. Pega a garrafa de vinho já pela metade, manda Natalícia beber um gole, dois, chega ao ouvido dela e diz que as coisas poderiam ser mais fáceis, que ela poderia ter uma vida menos dura. Mas não, resiste à madre e isso torna sua vida pior. Termina de comer e manda a serviçal juntar os restos e levá-los para a cozinha. Natalícia obedece. Pega também a garrafa de vinho, na qual resta pouco líquido, encaminha-se para a porta e a madre vocifera: "imbecil, deixa aqui meu vinho". Obedece à ordem. Sai rapidamente do quarto. Conta à Benguela que fizera tudo certo, agora era só esperar. Pela manhã a madre não aparece no horário habitual do café. Quando sua ajudante de ordens vai procurá-la no quarto, encontra-a no leito, dormindo ainda. Chama pela madre, chama outra vez, balança-a, ela acorda sonolenta e lânguida. Sem forças, dorme novamente. Benguela é chamada, avalia a situação e prepara um chá. Deixa-o com a ajudante e espreita da porta. O cheiro é muito bom, delicioso, a madre continua lânguida, vomita quando a ajudante suspende sua cabeça. Grita por Benguela, esta despeja o chá na goela da madre. Ela dorme, todas acham que vai melhorar. Passam-se dois dias e a madre continua acamada, agora tem febre, delira, profere calões, amaldiçoa o convento, a clausura. Chama por homens, aperta o sexo, escandaliza as irmãs. Finalmente dorme. Ao final do terceiro dia, morre. O Conselho se reúne e decide pelo enterro da madre nas dependências do convento. Escrevem uma carta à Cúria, comunicando o acontecido. Não fora preciso omitir a presença da garrafa de vinho no quarto, Benguela tivera o cuidado de retirá-la na madrugada, antes que alguém a encontrasse. Decidem que Estrela deveria sair do confinamento para evitar explicações à Cúria. Decisão providencial, a condenada já era pele e osso, não agüentaria por muito tempo. Transcorrem quatro meses de paz no convento. Período em que Estrela se recupera. Chega então uma carta da Cúria, avisando que em breve será designada outra responsável pela instituição. Aquela era a hora. Numa madrugada de lua nova, Natalícia, Esther e Estrela fogem do convento conduzidas por Maria Benguela. Caminham rapidamente até a estrada e pouco depois chegam um homem e uma mulher à cavalo, trazem consigo mais dois cavalos cilhados. Os dois guerreiros são altos e fortes, têm a pele escura, mas ele tem cabelos ondulados, parece filho de índio com negra. Ela é preta como Benguela, tem várias tranças e uma cicatriz muito feia no braço direito. Ele chama Benguela de mãe, toma a benção, ela, não. Abraçam-se os três, o abraço de Benguela à moça é mais longo e apertado. É jovem, mas não tanto quanto as duas noviças assustadas e Natalícia. É a moça, apresentada como Açucena, quem descreve o roteiro da viagem até o quilombo. Até o meio da manhã seguirão pela estrada, onde há pouco movimento. Depois passam por dentro da mata, dormem um pouco ao pé da cachoeira e na madrugada retomam a estrada. Ao amanhecer do dia seguinte subirão a serra do quilombo. Esther irá no cavalo com Benguela, Estrela com Açucena e Natalícia com o rapaz, Domingos. O quarto cavalo levará os víveres e a água e revezará a carga com um dos cavalos que se mostre mais cansado. Domingos e Natalícia trocam olhares e Benguela dá um sorriso de aprovação. Açucena, num gesto de carinho, tira o lenço da cabeça de Benguela, escapam duas grossas tranças embranquecidas que emolduram seu rosto como meia lua. "Eia, eia", Açucena conversa com os cavalos. Benguela amarra a saia no meio das pernas e ensina as meninas a fazerem o mesmo. Estão assustadas, mas felizes, seduzidas pelo desconhecido. Permanecem caladas, montam na traseira dos cavalos, sonhadoras, e rumam para a terra da liberdade. (Ilustração: Iléa Ferraz)
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