Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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23 de jul de 2007

TV a Gato

Você sabe que às vezes o pessoal da favela faz gato não é só pela falta, mas também pela revolta. Você imagina o que é no inverno só ter água quente pro banho se esquentar a gás ou a lenha, porque não há energia elétrica? Andar a favela inteira com as suas sacolas de lixo debaixo do braço até o asfalto, porque caminhão coletor não sobe o morro? A moçada então, não perdoa. Esperança desacreditada, fermentada pela falta de perspectiva vira revolta. Na juventude da Elza Soares existia bica e o pessoal subia com a lata d’água na cabeça. Vieram os sambistas do asfalto e fizeram os sambas que romantizaram a pobreza, como se viver do nada e das sobras fosse bom. Hoje o pessoal resolve a falta de água encanada com o gato feito por umas mangueiras sujas, furadas por pedregulhos e roedores. Contaminadas também por excrementos de bicho. É tanta gente neste país que bebe clorofórmio fecal – para não ofender os ouvidos mais puros. Gato de TV a cabo você deve achar que é luxo, pois talvez nem você tenha (TV a cabo ou um gato de TV a cabo) em sua residência. Mas, veja bem: assim como um vivente tem direito à água potável, tem também direito à programação televisiva de qualidade. Para obtê-la, no Brasil, é preciso pagar uma assinatura. Suponhamos que você possa pagar. Ocorre que a empresa prestadora do serviço acha que o lugar onde você mora não é digno dele. E você, além de perguntar-se onde mora a lógica capitalista da empresa, faz o quê? Os meninos fazem gato. E quer saber do que mais, quem gosta de miséria é intelectual, já disse o Joãozinho Trinta. E quer saber de outra coisa? O prédio do seu vizinho aluga apartamentos com TV a cabo incluída. Só que os usuários não pagam nada. Nem a administração. Ninguém paga. É gato. (Ilustração: Lia Maria)
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